A Revista InterHumanidades nasce com a convicção de que o conhecimento só cumpre sua vocação pública quando atravessa fronteiras disciplinares, linguagens e instituições. Em um tempo de plataformas onipresentes, decisões automatizadas e tensões normativas que desafiam as democracias, propomos um espaço editorial para pesquisa rigorosa, diálogo crítico e circulação responsável de ideias entre o Direito, as Ciências Humanas e as Ciências Sociais aplicadas. Este primeiro número apresenta um conjunto de trabalhos que, cada qual a seu modo, confronta os limites das categorias estabelecidas e ilumina novas possibilidades de análise e atuação.
Abrimos a edição com “A nova mudança estrutural da esfera pública em Jürgen Habermas: diálogo entre comunicação digital, democracia e direito constitucional”, de Rafael Simioni. O texto retoma o diagnóstico habermasiano da esfera pública à luz da plataformização e da intermediação algorítmica da comunicação, examinando seus efeitos sobre a formação da opinião e da vontade e as implicações para o desenho de garantias constitucionais. Ao articular teoria crítica, institucionalidade democrática e arquitetura informacional, o artigo oferece um marco analítico para debates regulatórios — da moderação de conteúdo às políticas de transparência —, recolocando a pergunta sobre como o direito pode proteger a deliberação pública sem sacrificar liberdade e pluralidade.
Em “A fabricação do direito em Bruno Latour: uma etnografia do direito”, Ricardo Sanches Amaral desloca o leitor do plano das teorias normativas para o plano das práticas. Inspirado na antropologia simétrica, o artigo acompanha os “fios” que compõem o jurídico: textos, argumentos, objetos, gestos, tempos e espaços que, em sua interação, fazem existir o que chamamos “direito”. Ao apostar numa descrição densa das cadeias de mediação — laboratórios, arquivos, audiências, escritórios, tribunais —, a contribuição ilumina a contingência e a eficácia performativa do trabalho jurídico, desnaturalizando o “já dado” e abrindo caminho para políticas de responsabilidade epistêmica nas instituições.
A terceira contribuição, “O processo estrutural no Brasil e na Colômbia: formação histórica, desenho conceitual e importância para enfrentar problemas jurídicos complexos em sociedades desiguais”, de María José Santiago, reconstrói a genealogia latino-americana das structural injunctions e examina sua tradução institucional em contextos marcados por hipercomplexidade e desigualdade. O artigo discute fases procedimentais, participação ampliada, monitoramento e métricas de resultado, propondo que a legitimidade do processo estrutural depende de transparência decisional, diálogo interinstitucional e accountability. Trata-se de uma reflexão de alto impacto para quem atua em políticas públicas, direitos fundamentais e governança judicial de reformas sistêmicas.
Em “Constitucionalismo global em Chris Thornhill: uma visão latino-americana”, Juliana Aquino Losa oferece uma leitura consistente de um dos projetos mais ambiciosos da sociologia do direito contemporânea. Partindo da tese thornhilliana de que dinâmicas constitucionais emergem de processos sociais transnacionais, o artigo interroga possibilidades e limites de tal perspectiva para periferias jurídicas, problematizando agência normativa, democratização e centros/periferias de produção do direito. A análise amplia a agenda de pesquisa sobre interconstitucionalidade, circulação de modelos e integração regional, com especial atenção às experiências latino-americanas.
Na seção de resenhas, Diogo C. Silva revisita Quentin Meillassoux, Après la finitude, destacando seus desafios ao correlacionismo e às formas de legitimação do conhecimento — uma provocação útil para debates metodológicos nas Humanidades e no Direito. Em seguida, Rafaela Teodoro Sampaio apresenta Gunther Teubner, Fragmentos constitucionais, obra central para compreender constitucionalismos parciais e ordens normativas além do Estado, decisiva para pensar direito privado, redes globais e regimes setoriais. As duas resenhas não apenas informam: cartografam problemas e sugerem programas de leitura para pesquisadores e profissionais.
Confiamos que este número inaugural cumpre três compromissos editoriais que guiarão a InterHumanidades:
- Interdisciplinaridade exigente: não se trata de justapor temas, mas de integrar métodos, referências e problemas de modo a produzir ganhos explicativos e orientações práticas.
- Rigor e abertura: a revista adota avaliação duplo-cega por pares, padrões elevados de integridade científica e metadados estruturados (DOI, referências normalizadas) para maximizar a visibilidade e a citabilidade dos trabalhos.
- Relevância pública: valorizamos pesquisas e relatos que produzam efeitos de aprendizado institucional, que ajudem a qualificar políticas, decisões e práticas em ambientes jurídicos, educacionais e organizacionais.
Nosso projeto editorial inclui ainda dossiês temáticos dedicados a boas práticas no Poder Judiciário e práticas exitosas na advocacia. Acreditamos que experiências bem-sucedidas, quando descritas com clareza metodológica e transparência de resultados, também são forma legítima de conhecimento: elas mostram como inovar com responsabilidade, avaliar com evidências e replicar com critérios.
Lançar uma revista é, inevitavelmente, um convite à coautoria ampliada. Convidamos pesquisadoras e pesquisadores, magistradas e magistrados, promotoras e promotores, defensoras e defensores, advogadas e advogados, gestoras e gestores públicos, educadoras e educadores a habitar este espaço. Que a InterHumanidades seja uma ponte confiável entre teoria e prática, entre tradição e inovação, entre o local e o global — e que cada artigo publicado aqui circule, dialogue e transforme.
Com satisfação e responsabilidade acadêmica, entregamos ao público este Volume 1, Número 1 (set./dez. 2025). Que ele inaugure uma série duradoura de debates qualificados, colaborações interdisciplinares e impacto social.
Valter Arnaldo Siqueira
Editor-chefe